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Ser Escritor em Portugal: 4 Escritores Partilham as Suas Experiências

Ser escritor em Portugal é, para muitos, uma jornada marcada pela paixão e resiliência. Num país com uma rica herança cultural e histórica, mas onde uma parte significativa da população ainda não tem hábitos regulares de leitura, o ofício da escrita enfrenta desafios únicos. Embora existam escritores talentosos e reconhecidos, a maioria confronta-se com obstáculos consideráveis no que diz respeito à visibilidade e à sustentabilidade da sua carreira. No entanto, apesar de todas as dificuldades, os escritores persistem, alimentados pelo amor à escrita e pelo desejo de partilhar as suas histórias com os leitores.

Neste artigo, vários autores partilham as suas histórias, os obstáculos que enfrentaram — e ainda enfrentam — ao longo da sua carreira, mas também as oportunidades que foram surgindo no seu percurso. São histórias autênticas, que oferecem uma visão inspiradora e realista sobre o caminho literário em território nacional.

Diana Tavares

Ser escritor no nosso país é um desafio, e não deixa de ser um tiro no escuro. Assim que partilhamos a nossa história com os leitores, deixa de ser só nossa. Ficamos susceptíveis a todo o tipo de criticas, boas e más, e nunca sabemos como o nosso livro vai ser aceite. É importante gerirmos as nossas expectativas, não deixarmos de acreditar mas mantermos os pés bem assentes no chão. O mercado para além de ser competitivo, pois cada vez são mais os autores portugueses publicados, é um mercado pequeno e ainda nos deparamos com a máxima de que o que vem de fora é sempre melhor. Ainda assim, temos cada vez mais jovens a ler e isso é maravilhoso. Por mais que as redes sociais tenham os seus contras, no que toca a livros, têm sido uma mais valia e têm colocado muitos jovens a ler.

Esta minha caminhada, apesar de pequenina, tem sido uma aventura muito gratificante. O carinho e apoio que recebo dos meus leitores é maravilhoso. Faz-me sentir muito grata e feliz por ter seguido este sonho. A todos os que estão a dar vida às suas histórias pela primeira vez, só posso dizer para não desistirem. Os percalços vão existir sempre, faz parte do processo como em qualquer área. Manter o foco, a determinação e o empenho, é fundamental.

Sobre a autora:

Diana Tavares nasceu em 1988, natural de Sever do Vouga. Desde cedo apaixonada pelo mundo das artes, sonhava ser escritora, arquiteta e artista plástica. A vida levou-a por outros caminhos e fê-la conhecer uma nova paixão, a fotografia, onde descobriu uma nova forma de contar histórias. A escrita nunca a abandonou, tornando-se no seu refúgio predileto e no palco para relatar os dissabores da vida. Vinte anos depois, decide escrever o seu primeiro romance, pois acredita que publicar uma obra é muito mais do que contar uma história e dar asas à imaginação; há uma mensagem que deve ser transmitida ao leitor e, para ela, só assim faz sentido.
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Diogo Simões

Num país pequeno, onde os índices de leitura não conseguem igualar as tiragens estrangeiras, ser escritor em Portugal é um verdadeiro desafio. Apesar do aumento de leitores mais jovens e da popularização de géneros literários associados a essa demografia, um escritor lusófono tem de perseverar face à adversidade imposta pelos temas, pelas traduções e pelas exigências do mercado, para conseguir contar a história que deseja e na sua própria voz.

Escrever com a expectativa de lucros astronómicos é irrealista, mas muitos de nós sonham com a possibilidade de transformar esta paixão na nossa carreira principal. Nesse contexto, a nossa voz literária surge como um fator decisivo. Não basta saber o que queremos contar e arriscar em temas únicos e atuais; é também essencial conquistar o público, sobretudo através das redes sociais. Este aspeto tornou-se, hoje em dia, um pilar fundamental, já que não só temos de demonstrar a nossa “voz única” na escrita, mas também de nos mostrar ao público, de forma a convencê-los de que somos a pessoa certa para contar aquela história.

Os livros que chegam do estrangeiro trazem ideias e mundos diferentes, mas o autor português não pode esquecer a sua própria realidade. Através das suas histórias, deve deixar uma marca cultural que reflita o tempo em que vive. Aqui entra, evidentemente, a importância e a luta constante para que os editores publiquem mais do que se escreve em Portugal e que os leitores também acolham essas obras.

Foi algo que compreendi ao longo destes dez anos de carreira, nos quais explorei editoras Vanity, editoras tradicionais e até a autopublicação em formato e-book. Participei em inúmeros eventos e feiras literárias e, a cada etapa do percurso, percebi não só a resistência que o autor português enfrenta, como também a sua valorização recente. As editoras, apesar de ainda não conseguirem equilibrar as publicações nacionais com as traduções, reforçaram o seu compromisso em publicar autores portugueses. Desde distopias, a ficção jovem-adulta, thrillers, dramas e romances, são diversos os géneros que, a cada ano, conseguem um lugar nas livrarias. Contudo, esse destaque é muitas vezes efémero, e o crescimento das redes sociais tem ajudado, não só através do passa-palavra, mas também na constante promoção do nosso trabalho, servindo como uma ponte para demonstrar às editoras e ao mercado que há espaço e interesse por determinado autor, género ou tema.

Este caminho está longe de ser fácil. Por mais que tentemos iluminar o processo, a solidão continua a fazer parte da vida de um autor, bem como a incerteza, a dúvida e o medo da rejeição. Não há fotografias ou palavras que consigam transmitir todas as experiências e aprendizagens que acumulei ao longo destes anos. Contudo, o que mais destaco é a perseverança necessária para terminar cada história, para procurar novas editoras, melhores direitos e uma maior valorização do autor e da sua obra, dentro do possível, no nosso mercado. A maturidade do autor está intimamente ligada à gestão do ego e à compreensão diária do porquê do que faz. A vaidade deve ser colocada de lado para dar lugar a algo verdadeiramente único, algo que, no final, faça o leitor ansiar por mais do nosso trabalho.

Sobre o autor:

Diogo Simões, natural de Leiria e residente em Vila Nova de Gaia, é programador e escritor. Apaixonado por chá e chocolates, encontrou na literatura uma forma de explorar temas sociais e humanos. Autor de O Bater do Coração, Esquecido, O Que Nos Magoa, Dislike, P.S.: Ficas Comigo?, A Ideia de Nós e Três Dias até ao Natal, continua a navegar entre o código e as palavras. Instagram | Website


Filipe Faria

Paixões todos nós temos. E a única forma de impedir que elas nos consumam é encaixarmos a realidade que temos de estar em condições de as seguir. E, caso essas condições não existam, há que criá-las.

Durante os primeiros anos da minha carreira, vivi o meu sonho, na medida em que me foi possível viver apenas da escrita. Era jovem, tinha outras prioridades e o momento foi uma conjunção de factores que dificilmente se repetirá, mas foi-me possível fazê-lo, mesmo sem ser um dos eleitos. E digo “eleitos” sem qualquer acinte ou inveja, porque esses são-no em virtude da pequena dimensão do mercado livreiro em Portugal, que não comporta mais. Podia perfeitamente ser maior, sim, mas isso são outros quinhentos.

Actualmente, e desde há uns bons quinze anos, isso deixou de ser uma realidade para mim. Foi um golpe duro, porque escrever e criar era e é aquilo que verdadeiramente desejo fazer, o que mais prazer me dá e mais realizado me faz sentir. Por isso, houve que criar as condições de me poder dar ao luxo de despender tempo para o fazer, e lancei-me na tradução, coisa que até então tinha apenas feito por carolice.

Hoje, como a esmagadora maioria dos escritores do nosso burgo, tenho pelo menos duas actividades abertas nas Finanças, e os direitos de autor são apenas um complemento dos meus rendimentos. É a situação que eu tinha idealizado? Não. É a alternativa que me permite escrever e criar com paz de espírito, visto que, embora seja fisicamente possível formar um tecto sobre a cabeça com livros, comê-los continua a ser inviável? Sim. Quer isto dizer que esqueci e abandonei de vez o sonho? Não.

Convém um escritor ter os pés bem assentes no mundo, uma vez que vive nele, mas continua a precisar de ter a cabeça nas nuvens para criar. E é esse estado de espírito que nunca se deve perder, pois é com ele que continuamos a almejar podermos um dia viver exclusivamente daquilo que gostamos de fazer, partilhando-o com os leitores. Leitores esse que há que valorizar, e esta é a mensagem que verdadeiramente pretendo transmitir com este texto.

Nunca devemos tomar os leitores como um dado adquirido. Um escritor consagrado com múltiplos best-sellers internacionais deve valorizá-los tanto como um autor acabadinho de estrear e qua ainda vai às livrarias espreitar timidamente atrás de um escaparate, à espera que alguém folheie o seu livro. Não devemos vê-los ou tratá-los como um par de olhos que deram dinheiro para ler os nossos devaneios, pois os leitores são convidados na casa que construímos, quer gostem da decoração ou não. Viajaram pelo mundo por nós construído e criaram uma ligação connosco que, consoante a importância que ambas as partes estiverem dispostas a dar-lhe, pode ser incrivelmente gratificante.

Não quero com isto dizer que um escritor deva ser amigo de todos os seus leitores, mas partilhar o que escrevemos com outros pode dar tanto prazer como a escrita em si. É o motivo último pelo qual o fazemos, afinal de contas, a menos que tenhamos um fetiche por gavetas. Livros são repositórios de unidades de sistemas culturais, e está-nos entranhada nos genes e na alma a necessidade de os partilhar e transmitir, porque palavras no vácuo acabam por não ter grande piada, mesmo que nos tenha dado prazer escrevê-las.

Por isso, e para terminar, por muito trabalho que a escrita de um livro dê, e por muito pouco sociáveis que sejam, nunca descurem o contacto com os leitores. Seja por e-mail ou redes sociais, façam-no. Vale a pena a todos os níveis.

Sobre o autor:

Nasci a 11/02/1982 em Lisboa. Frequentei a Academia de Sta. Cecília durante um ano. De seguida ingressei na Escola Alemã de Lisboa, que frequentei desde o jardim de infância até ao 12º ano. Ganhei uma perspectiva diferente através do contacto com uma cultura tão sui generis e tão antagónica à nossa como a dos alemães. Cedo cultivei um gosto pela literatura fantástica, atiçado pelo meu interesse pela Idade Média e por uma fortuita descoberta durante o 8º ano na biblioteca da escola: A Tolkien Bestiary. Blog

Desde então a fantasia tem sido para mim uma insaciável paixão. Principiei a fazer os esboços de uma aventura aos 16 anos, que lentamente foram evoluindo para uma obra de quase 600 páginas. Concorri com A Manopla de Karasthan ao Prémio Branquinho da Fonseca, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian e o jornal Expresso, em Janeiro de 2001. Fui informado de que era o vencedor em Novembro desse mesmo ano. Estabeleci contacto com a Editorial Presença em Janeiro de 2002 e o livro foi publicado em Abril, seguido em Dezembro desse ano por Os Filhos do Flagelo, o segundo volume da saga, e assim iniciei a minha carreira literária. Completei três anos do curso de Línguas e Literaturas Modernas, até me aperceber de que já escolhera o meu caminho na vida, e de que já caminhava nele.


Henrique Cruz

Ser escritor em Portugal é uma jornada cheia de emoções, desde o processo de escrita até à publicação de uma obra. Quero partilhar convosco a minha experiência, os desafios que enfrentei e as emoções que vivi ao criar e publicar o meu livro.

Para quem deseja aventurar-se na escrita, há algo essencial a ter em mente: ler, ler e ler. A leitura amplia a nossa imaginação, seja para pesquisar elementos úteis ou explorar géneros que apreciamos. Ler é uma fonte constante de inspiração.

No meu caso, queria que o meu livro se destacasse na temática do espaço-tempo. A ideia inicial era criar um universo onde um jovem viaja no tempo de forma incontrolável, preso num ciclo em que, sempre que progredia, voltava ao passado. Para tornar este conceito mais interessante, aprofundei a pesquisa no campo da física e da filosofia, o que me deu novas perspetivas e permitiu criar diferentes poderes relacionados com a temática, enriquecendo a narrativa.

O processo de escrita foi, sem dúvida, o mais belo. Escrever é onde as ideias ganham forma e a criatividade flui. Durante esse processo, rimo-nos com as personagens, emocionamo-nos com as suas lutas e, por vezes, sentimos frustração com as ideias que não resultam. No entanto, é também quando encontramos satisfação ao ver a estória ganhar vida.

Depois da escrita, o maior desafio foi fazer a obra chegar aos leitores. O mercado literário português é altamente competitivo. Já há vários autores consagrados, enquanto nós, os novos escritores, lutamos para encontrar espaço. Além disso, o número de livros publicados é superior à média de leitores, o que complica ainda mais o cenário.

Quando submeti o manuscrito, deparei-me com a dura realidade do mercado. Muitas vezes, ficamos sem resposta ou somos recusados pelas editoras. Isto pode ser desmotivador a longo prazo, sobretudo pelo esforço e tempo investidos. O custo elevado de publicar novos autores e o risco comercial são os principais fatores que limitam as oportunidades para escritores iniciantes. Ainda assim, sublinho que devemos manter o ânimo e arriscar sempre, dentro das nossas possibilidades. Nenhum sonho se realiza sem esforço.

Felizmente, eu encontrei uma oportunidade na Saída de Emergência, através da iniciativa “Eu amo autores portugueses”. Na altura desconhecia este projeto, mas fiquei a conhecer a editora numa apresentação do Luís Corte-Real, o fundador, e fiquei encantado com a visão e os objetivos deles. Decidi, então, submeter o meu manuscrito e recebi uma resposta positiva, o que me motivou bastante.

Seguiu-se o processo de revisão. Na minha experiência como autor, é muito fácil não detetar erros, pois o cansaço após o trabalho e o facto de conhecermos a história de cor fazem-nos saltar determinados detalhes. Aqui é um dos pontos em que a editora brilha, pois realiza as revisões meticulosamente, sempre com a nossa aprovação para garantir a integridade do enredo.

A criação da capa foi outro processo importante. Pude contribuir com um esboço inicial que a equipa de design utilizou como base, e o resultado, na minha opinião, refletiu-se perfeitamente no conteúdo do livro.

Por fim, o processo de divulgação foi igualmente desafiante. Promover o livro nas redes sociais foi complicado, especialmente porque, no início, ainda não tinha o livro físico. Além disso, não sou muito ativo nas redes sociais. No entanto, com o apoio das pessoas próximas e da comunidade de bookstagrammers, que desempenharam um papel crucial na promoção, consegui divulgar o livro de uma forma que nunca conseguiria sozinho, algo pelo qual estou muito grato.

Espero que este relato inspire outros escritores a seguirem os seus sonhos.

Um abraço,

Henrique Cruz

Sobre o autor:

Henrique Xavier Araújo Cruz nasceu a 14 de novembro de 1995. Viveu a sua infância em Mira, cujas memórias lhe trazem até hoje um carinho especial. Formou-se em Enfermagem em 2019, na Universidade de Aveiro, cidade onde ainda hoje exerce a sua profissão.

Desde sempre, Henrique nutriu uma paixão por histórias que envolvem temas de fantasia e ficção científica. Com uma imaginação fértil, sempre ambicionou transformar as variadas ideias que lhe surgiam em palavras, para criar livros que pudessem chegar às mãos dos leitores.

“O Ciclo de Tempo Infinito” é a sua primeira obra literária, criada e nutrida durante os tempos mais críticos da pandemia. Esta experiência única, entre a dedicação à sua profissão e à escrita, resultaram numa narrativa rica em mistérios e aventuras, que agora partilha com o mundo. Instagram

Em conclusão, deixo o meu sincero agradecimento à Diana, ao Diogo, ao Filipe e ao Henrique pela sua generosidade e disponibilidade em partilharem as suas valiosas experiências conosco.

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