Hoje temos a honra de conversar com uma autora que desafia as convenções tradicionais do mercado literário português. Ana Ashley, uma escritora que construiu uma carreira sólida e de sucesso através da autopublicação de livros na Amazon, é um exemplo inspirador para qualquer escritor que sonha em viver da sua arte. Num percurso alternativo e, em muitos sentidos, corajoso, Ana não só encontrou uma audiência leal, como provou que é possível fazer da escrita a sua principal fonte de rendimento. Nesta entrevista, vamos explorar o caminho que a levou até aqui, os desafios que enfrentou e as decisões que moldaram a sua trajetória singular no mundo literário.
Antes de mais e porque os leitores têm sempre muita curiosidade sobre os autores, quem é a Ana Ashley? Como nasceu a tua paixão pela escrita?
Ana Ashley é uma rapariga que cresceu numa vila pequena, mas com sonhos muito grandes. Os meus estudos de música levaram-me a Londres quando tinha vinte anos, e por lá fiquei. Vivi em muitos lugares na Inglaterra e tive trabalhos muito diversificados, mas foi o último que me levou na direção da escrita.
Sempre adorei ler. As viagens diárias no metro de Londres ou no comboio eram o sítio ideal para me distrair com um romance. Sempre adorei romance. Ao ter de mudar-me, em 2014, para uma área onde não tinha amigos ou familiares, comecei a ler mais, porque não tinha companhia por perto. Em casa, lia e-books, e no carro ouvia livros em formato áudio. O único tempo em que não estava rodeada de um romance era mesmo quando estava a trabalhar.
Em 2015, descobri acidentalmente romance LGBT, nomeadamente romance gay (Male/Male). Foi uma grande educação e uma abertura de olhos, ou talvez fosse uma daquelas coisas destinadas a acontecer.
Comecei a seguir os meus autores favoritos, fazendo parte dos seus grupos no Facebook e street teams. Nem me lembro em que momento pensei que gostava de experimentar escrever um livro, mas lembro-me de ter uma sessão de coaching num curso que fiz no trabalho. Eu disse em voz alta que gostava de escrever um livro, e a minha coach perguntou: «Por que não o fazes?»
Essa pergunta ficou na minha cabeça durante semanas. Um dia comecei, e nunca mais parei. Parece mentira, mas é a melhor maneira de explicar. Foi como o Forrest Gump, que começou a correr e só parou algum tempo depois, com a exceção de que eu não tenho intenção de parar.
Escrevo em inglês para uma audiência maioritariamente americana. Foi uma decisão deliberada, mas também a que fez mais sentido para mim, pessoalmente, visto que a minha educação como adulta foi feita em inglês e todos os livros que leio são em inglês.
É importante ter isso em consideração ao leres o resto das minhas respostas.
O que te levou a escolher a Amazon como plataforma para publicar os teus livros?
Na realidade, não houve outra opção para mim. Quando comecei a escrever o meu primeiro livro, adicionei-me a todos os grupos de escritores que havia no Facebook. Conheci muitos autores que, hoje em dia, são bons amigos e aprendi muito sobre publicar livros de forma independente.
Para publicar um livro de forma tradicional, teria de arranjar um agente e enviar o manuscrito a editoras. A percentagem de livros que são aceites é minúscula. Além disso, eu estava a escrever por diversão. Adorava o meu trabalho e não tinha intenções de mudar.
A Amazon — pensemos dessa plataforma o que quisermos — na realidade facilita muito a realização dos sonhos dos autores independentes. Em todas as áreas da vida, há sempre uma curva de aprendizagem, e com isto não é diferente. Mas a vantagem de ser autor independente é que temos a responsabilidade por todas as áreas deste negócio, mas também temos o controlo e, mais importante, recebemos os dividendos do nosso trabalho.
É importante conhecermos o nosso mercado e, no meu caso, a maioria dos leitores lê tanto que a melhor maneira de descobrirem novos autores é através da Kindle Unlimited, um programa da Amazon que requer exclusividade.
Hoje já tenho títulos noutras plataformas, como Kobo, Barnes & Noble, Apple, Google Play, em bibliotecas e lojas online internacionais, mas a Amazon é, de longe, a que tem mais audiência e, por isso, é mais lucrativa.
Quando e como tomaste a decisão de viver exclusivamente da escrita? Como foi esse processo de transição?
A decisão foi mais um sonho que tive a audácia de expressar em voz alta, e decidi que ia acontecer. Em agosto de 2019, fui a uma conferência para autores independentes em Edimburgo. Foi nessa conferência que percebi que, na realidade, esse sonho de viver da escrita não é assim tão impossível. Temos de conhecer o mercado, entender o que os leitores querem, as expectativas do género, e ter muita dedicação, não só à escrita, mas também à aprendizagem.
Após essa conferência, com o suporte do meu namorado, com quem vivo, decidi tirar um ano sabático no trabalho. A pandemia aconteceu e, o que é que uma autora que tem o objetivo de viver da escrita faz quando não pode ir a lado nenhum? Escreve, claro.
Em 2020, publiquei uns seis ou sete livros, nem me lembro bem. Em abril de 2021, quando o meu ano sabático chegou ao fim, já estava numa posição em que tinha as condições suficientes para dar esse salto. Em abril de 2021, a Ana Ashley tornou-se escritora a tempo inteiro.
Que estratégias de marketing utilizaste para criar uma base de leitores sólida? De que forma o feedback dos leitores influencia o teu trabalho?
A minha maior estratégia de marketing é a minha newsletter. Tenho vindo a construir a minha base de leitores desde 2019, quando comecei a levar este negócio mais a sério.
Também tenho presença nas redes sociais e um website com uma loja, onde os leitores podem comprar livros diretamente.
Experimentar é a chave para o sucesso. Já experimentei muitas estratégias que não resultaram. Outras resultaram apenas durante um curto espaço de tempo. Algumas estratégias não funcionam no início, mas mais tarde podem vir a funcionar.
É importante mostrar uma imagem positiva. Trabalhei muitos anos em comércio, desde a frente da casa até áreas de suporte. Nunca devemos deixar a porta do armazém aberta. Os leitores não precisam de saber que, por detrás da porta, só existe caos. Há momentos para oferecermos informação aos leitores, porque é importante que saibam como certas coisas afetam os autores independentes, mas, ao mesmo tempo, há coisas que eles não precisam de saber.
Adoro o feedback dos leitores, mas é importante lembrar que, para cada leitor que oferece feedback, existem mil que nunca nos contactam. Faço muito pelos meus leitores: campanhas de Natal na minha newsletter, escrevo livros mais pequenos que ofereço de graça e até livros em formato áudio. Para mim, há uma distinção entre a comunidade que tenho próxima de mim através das redes sociais e a população inteira de consumidores que compram os meus livros.
Como organizas o teu dia a dia para garantir que consegues continuar a publicar novos livros?
Adorava descrever o meu dia ideal, mas não estaria a dizer a verdade.
A minha vida é um caos. Escondo-me do mundo quando tenho de escrever um livro e consigo fazê-lo com alguma rapidez. Depois, posso passar dois meses a fazer outras coisas. Não é o ideal, e é um processo que vai mudando à medida que vou aprendendo mais sobre os meus pontos fortes e também sobre as minhas fraquezas.
Quando comecei, tinha aquele sonho de escrever todos os dias, com a chávena de café e umas bolachinhas na mesa, e as ideias a fluir sem problemas.
Na realidade, a forma como trabalho vai evoluindo ao mesmo tempo que vou assumindo novas responsabilidades. Neste momento, tenho livros traduzidos em alemão, italiano e francês. Também tenho livros em áudio. É muita coisa para coordenar, e, quando tentei fazer tudo sozinha, praticamente não consegui escrever.
Ser escritora independente, às vezes, parece que é menos escrever e mais tudo o resto. Agora, tenho duas assistentes que me ajudam bastante e dão-me o tempo de que preciso para poder fazer aquilo que realmente gosto. À medida que o meu pequeno império literário vai crescendo, tenho de me adaptar. A escrita é sempre o mais importante. Ninguém pode fazê-la por mim.
Quais são os maiores desafios que enfrentas como escritora independente?
A vasta quantidade de trabalho e as coisas que estão sempre a puxar a minha atenção para outros lados. Todos os dias tenho de tomar decisões: escolher modelos para capas de livros, contratar designers, narradores, tradutores, decidir o estilo da capa do livro em que estou a trabalhar, manter presença nas redes sociais… parece que nunca posso parar.
Como autora independente, estou dependente de plataformas que não me pertencem. A Amazon pode, a qualquer momento e sem razão, decidir fechar a minha conta, e logo aí perco a maior parte do meu rendimento mensal. Esse é apenas um dos muitos exemplos. Para equilibrar esse risco, tenho de focar muita energia nas coisas que posso controlar, como a minha newsletter, o meu website e a minha loja direta.
Que conselhos darias a escritores portugueses que desejam seguir o mesmo caminho e viver exclusivamente da escrita com livros autopublicados?
Ser autor não é um sprint, é uma maratona, e uma das coisas mais importantes para a sobrevivência nesta carreira é saber definir qual é o teu objetivo.
É necessário deixar certos preconceitos para trás. Autores autopublicados conseguem fazer uma carreira mais lucrativa e agradável do que a maioria dos autores que seguem um caminho mais tradicional. Os unicórnios são unicórnios por essa mesma razão.
Eu não sou um unicórnio.
Quando olhares para a carreira de outros autores cujo sucesso queres emular, tem em consideração as circunstâncias pessoais e financeiras desses autores. Quem começou a autopublicar quando a Amazon lançou o Kindle e construiu uma carreira de sucesso teve vantagens que um autor a começar agora não tem. Por outro lado, hoje em dia, já há mais informação disponível para ajudar novos autores, que não havia no início.
Conhece o teu leitor e dá-lhe o que ele quer. Há sempre maneira de satisfazermos os nossos leitores e a nossa criatividade ao mesmo tempo.
Exercita o pensamento crítico. Não acredites em tudo o que ouves. Faz a tua pesquisa. Não acredites em tudo o que eu digo. Quem sou eu para te dizer o que deves fazer? Mas quando alguém com histórico de sucesso como autor te dá conselhos, ignora-os ao teu próprio risco.
Nada na vida é garantido, e o mesmo se aplica à escrita.
Quais são os teus planos e objetivos futuros como escritora?
O meu maior objetivo é diversificar os meus fluxos de rendimento. Quanto mais produtos eu tiver para oferecer aos leitores em formatos diversos, mais posso garantir um rendimento certo e constante.
A segurança financeira é muito importante para mim. Ao mesmo tempo, esta carreira tem-me levado a todos os cantos do mundo, desde a Austrália até aos Estados Unidos. Quero poder continuar a fazer estas viagens e a conhecer os meus leitores em todo o mundo.
Há certos planos que ficam junto do coração até eu ter coragem de os dizer em voz alta ou de os concretizar, mas uma coisa é certa: nunca vou parar de escrever e de partilhar as minhas histórias com o mundo.
Em jeito de conclusão, gostaria de expressar um sincero agradecimento à Ana Ashley pela sua disponibilidade e por partilhar connosco a sua inspiradora jornada no mundo da escrita.

Sobre a autora:
Ana Ashley nasceu em Portugal, mas vive no Reino Unido há tanto tempo que até os seus amigos às vezes duvidam se ela é realmente portuguesa.
Ana escreve romances gay doces e apaixonados ambientados na América, muitas vezes em pequenas cidades onde todos se conhecem. Vinda de uma pequena cidade, ela conhece bem as famílias intrometidas, os vizinhos curiosos e aquele espírito comunitário que resulta de conhecer as pessoas toda a vida.
